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quinta-feira, 28 de outubro de 2010

ANTES DO ANTES

Todos sabem: antes dos cientistas, antes dos fotógrafos, antes dos exploradores, nós, os desenhistas e escritores ditos de humor (na verdade a quintessência da seriedade) sempre chegamos antes ou fomos antes aonde não se achava possível.

Conversamos com os homenzinhos verdes de Marte antes dos cientistas, estivemos na lua antes dos astronautas, como antes penetramos nos porões de ditaduras, deixando registradas cenas horriphilariantes.

E até firmamos o princípio de que ''um tirano pode impedir uma fotografia, mas não pode evitar uma caricatura''.

Provando isso, agora, quando o novo Hubble parece ter fotografado um big-bang, republicamos este texto escrito há algumas décadas, pra mostrar que, nisso também, chegamos primeiro. Ou seja:

Além do infinito, tempos que ainda não se haviam iniciado, onde nem o nada ameaçava se tornar. Tempo inimaginável por ainda não existir imaginação, em plena vacuidade, no seio do incogitado, nicles patavina impalpável e intangível. É, não havia o primevo, nem o embrional: tudo (nada) sem transpiração, respiro, desova, parto, nenhuma exalação ou sopro ou brilho. Uma perpetuidade sem fim, sem margem, sem nascente ou ocaso, côncavo ou convexo, ilimitável porque ilimitada. Foi então (como então?) que O Que Não Existia pressentiu (como?) a Criação. Comunicou (como? a Vazio insubstancial sobre vazio absoluto, entre o inascido e o inascível, ponto inenditificável incomensuravelmente distante de onde as paralelas nem se prometiam no remoto, onde ninguém (e nem ninguém não existia ) perceberia a formação do ausente. quem?).

MORAL: DA VIDA NINGUÉM ESCAPA

(Millôr Fernandes)


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