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segunda-feira, 13 de abril de 2015



Ver vendo, de Otto Lara Rezende


De tanto ver, a gente banaliza o olhar... Vê não-vendo... 

Experimente ver pela primeira vez o que você vê todo dia, sem ver... Parece fácil, mas não é... 
O que nos cerca, o que nos é familiar, já não desperta curiosidade... O campo visual da nossa rotina é como um vazio... 

Você sai todo dia, por exemplo, pela mesma porta... Se alguém lhe perguntar o que você vê no seu caminho, você não sabe... De tanto ver, você não vê... 

Sei de um profissional que passou 32 anos a fio pelo mesmo hall do prédio de seu escritório... Lá estava sempre, pontualíssimo, o mesmo porteiro... Dava-lhe um bom dia e às vezes lhe passava um recado ou uma correspondência... 

Um dia o porteiro cometeu a descortesia de falecer... Como era ele? Sua cara? Sua voz? Como se vestia? Não fazia a mínima idéia... Em 32 anos, nunca o viu... Para ser notado, o porteiro teve que morrer... 

Se um dia no seu lugar estivesse uma girafa, cumprindo o rito, pode ser que também ninguém desse por sua ausência... O hábito suja os olhos e lhes baixa a voltagem... 

Mas há sempre o que ver... Gente, coisas, bichos... E vemos? Não, não vemos... 

Uma criança vê o que um adulto não vê... Tem olhos atentos e limpos para o espetáculo do mundo... 

O poeta é capaz de ver pela primeira vez o que, de tão visto, ninguém vê... Há pai que nunca viu o próprio filho... 

Marido que nunca viu a própria mulher (e desconhece os seus segredos e desejos), isso existe às pampas... 

Nossos olhos se gastam no dia-a-dia, opacos... É por aí que se instala no coração o monstro da indiferença...