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sexta-feira, 8 de maio de 2009

E QUEM NÃO É MÃE?




As mulheres que optaram por não ter filhos acabam virando mães de muita gente: dos sobrinhos, dos filhos dos outros, dos pais, da diarista... Ou seja, para que as mães possam ser mães com mais tranqüilidade, é preciso que existam algumas 'não-mães' cuidando do resto

Todo ano é a mesma coisa: saio para almoçar no Dia das Mães, não pela data, mas porque almoço fora todos os domingos, e, na entrada ou na saída do restaurante, recebo uma rosa, coloco num vaso -mas ela fica muito solitária ali. Mudo para um copo americano e, no final do dia, a rosa acaba indo agonizar dentro da lata de lixo. A pergunta que não quer calar nesses domingos de maio é sempre a mesma: por que não passa pela cabeça de (quase) ninguém, incluindo os donos de restaurantes, que algumas mulheres podem não ser mães? Ou, melhor dizendo: por que, na nossa cultura, ser mãe ainda é o destino do qual nenhuma mulher pode fugir?

'Já me acostumei a ser vista como ET', diz Ana Maria, casada e a única de sua turma de amigas a optar por não ter filhos. 'E devo ter respondido umas 530 vezes até hoje por que não quis ser mãe.' Pergunto a ela como faz para responder uma pergunta tão difícil em conversas que em geral ficam na superfície. Quero aprender o segredo. 'Às vezes tenho vontade de perguntar se ela dispõe de umas três horas pra ouvir a resposta', brinca. 'Mas acabo dizendo qualquer coisa do tipo 'nunca me senti preparada', como se isso pudesse resumir tudo que vivi internamente até tomar essa decisão.' É mais ou menos como tentar explicar os conflitos no Oriente Médio dizendo que árabes e judeus não se curtem.

O fato é que nós, não-mães, ainda somos vistas como mulheres à parte. As que não puderam ter filhos contam com a solidariedade das outras. Mas as que optaram por não tê-los são vistas como criaturas exóticas e imaturas, não raro egoístas. Em um mundo cheio de parquinhos, carrinhos, bichinhos, amiguinhos -esse vasto mundo no diminutivo-, quem não tem filhos se sente grande e desajeitada, alguém que não se encaixa. Talvez por isso algumas mulheres tenham comportamentos excêntricos para compensar a não-maternidade.

Juliana pediu emprestado o filho da amiga para ir à Disney. Ela queria fazer aquela viagem clássica à Flórida, mas não conseguia se imaginar lá sozinha, aos 30 anos, naquele mar de mães e meninos. Pagou a viagem para o quase-sobrinho e lá se foram os dois, ela feliz no papel de quase-mãe e quase-tia. Raquel, que fez mil tratamentos mas (ainda) não conseguiu engravidar, diz que tira de letra a maioria das situações enfrentadas pelas não-mães, menos os horários de pico nas padarias. 'É duro. Todo mundo pedindo sete, oito pãezinhos, e eu saio com um só, naquele minissaquinho... Já cheguei a pedir quatro, só para me sentir menos diferente. Hoje, fujo dos horários de pico, prefiro as padarias vazias.'

Para Isabel, o mais difícil é o que ela chama de 'roda de mães'. 'Você se senta com cinco mulheres que têm filhos e elas passam dois terços do tempo contando casos deles. Você ri, faz comentários bobinhos, não tem o que dizer. Várias vezes tentei contar casos dos meus sobrinhos pra poder participar. Hoje não faço isso mais, porque vi que histórias de sobrinhos não têm o mesmo status que histórias de filhos.' Ela também se recusa a ir a aniversários de crianças: 'Sempre peço: por favor, não me convidem! Só quem tem filhos merece passar duas horas numa festa infantil'. Ela diz que ama crianças, mas nunca conseguiu se enxergar como mãe e preferiu assumir sua vocação de não-mãe a correr o risco de tornar um filho infeliz.

Bete resume numa frase um aspecto fundamental da vida das mulheres que não tiveram filhos. 'Como somos mais disponíveis, acabamos virando mãe de muita gente: dos sobrinhos, dos filhos dos outros, dos pais, dos irmãos que têm problemas, da diarista...' Ou seja: para que as mães possam ser mães com mais tranqüilidade, é preciso haver algumas não-mães cuidando do resto. Será que isso nos dá o direito de sair do restaurante com a rosa vermelha sem sentir culpa?

Possivelmente. Na dúvida, se você for uma não-mãe, passe numa floricultura qualquer dia de maio e se dê de presente um belo buquê de rosas amarelas. A gente merece.


Leila Ferreira é jornalista, apresentadora de TV e autora do livro 'Mulheres - Por que Será que Elas...', da Editora Globo

Um comentário:

cris*borrego disse...

Mima,
este post tem tudo a ver comigo; adorei! beijos