quinta-feira, 24 de maio de 2012

INGRATIDÃO

Nunca mais me esqueci!... Eu era criança
E em meu velho quintal, ao sol nascente,
Plantei, com a minha mão ingênua e mansa,
Uma linda amendoeira adolescente.

Era a mais rútila e íntima esperança...
Cresceu... cresceu... e, aos poucos, suavemente,
Pendeu os ramos sobre um muro em frente
E foi frutificar na vizinhança...

Daí por diante, pela vida inteira,
Todas as grandes árvores que em minhas
Terras, num sonho esplêndido semeio,

Como aquela magnífica amendoeira,
Eflorescem nas chácaras vizinhas
E vão dar frutos no pomar alheio...




RAUL DE LEONI
Transcrito de "Luz Mediterrânea". pp. 73-73

RAUL DE LEONI
Petrópolis, RJ, 1895 - Itaipava, RJ, 1926

terça-feira, 15 de maio de 2012

UM POUCO DE FERNANDO PESSOA



Eras sobre eras se somem
No tempo que em eras vem.
Ser descontente é ser homem.
Que as forças cegas se domem
Pela visão que a alma tem!

E assim, passados os quatro
Tempos do ser que sonhou,
A terra será teatro
Do dia claro, que no atro
Da erma noite começou.

Grécia, Roma, Cristandade,
Europa - os quatro se vão
Para onde vai toda idade.
Quem vem vier a verdade
Que morreu D. Sebastião?

(Do livro MENSAGEM)

quinta-feira, 26 de abril de 2012

A MANSIDÃO



A mansidão eu amo e sempre que entro
pelos ermos umbrais da escuridão
abro os olhos para enchê-los
da doçura dessa paz.

A mansidão eu amo sobre todas
as coisas deste mundo.

Na quietude das coisas eu descubro
um canto enorme e mudo.
E quando elevo os olhos para o céu
nos estremecer das nuvens eu encontro,
na ave que cruza o espaço e até no vento
a doçura que fluida mansidão


PABLO NERUDA

domingo, 15 de abril de 2012

ENTRE PARTIR E FICAR


(Rarindra Prakarsa)


Entre partir e ficar hesita o dia,
enamorado de sua transparência.


A tarde circular é uma baia:
em seu quieto vai e vem se move o mundo.


Tudo é visível e tudo é ilusório,
tudo está perto e tudo é intocável.


Os papéis, o livro, o vaso, o lápis
repousam à sombra de seus nomes.


Pulsar do tempo que em mima têmpora repete
a mesma e insistente sílaba de sangue.


A luz faz do muro indiferente
um espectral teatro de reflexos.


No centro de um olho me descubro;
não me vê, não me vejo em seu olhar.


Dissipa-se o instante. Sem mover-me,
eu permaneço e parto: sou uma pausa.


(Octávio Paz)