segunda-feira, 25 de outubro de 2010

EU APRESENTO A PÁGINA BRANCA

Eu apresento a página branca.

Contra:

Burocratas travestidos de poetas
Sem-graças travestidos de sérios
Anões travestidos de crianças
Complacentes travestidos de justos
Jingles travestidos de rock
Estórias travestidas de cinema

Chatos travestidos de coitados
Passivos travestidos de pacatos
Medo travestido de senso
Censores travestidos de sensores
Palavras travestidas de sentido
Palavras caladas travestidas de silêncio

Obscuros travestidos de complexos
Bois travestidos de touros
Fraquezas travestidas de virtudes
Bagaços travestidos de polpa
Bagos travestidos de cérebros
Celas travestidas de lares

Paisanas travestidos de drogados
Lobos travestidos de cordeiros
Pedantes travestidos de cultos
Egos travestidos de eros
Lerdos travestidos de zen

Burrice travestida de citações
água travestida de chuva
aquário travestido de tevê
água travestida de vinho
água solta apagando o afago do fogo
água mole sem pedra dura
água parada onde estagnam os impulsos
água que turva as lentes e enferruja as lâminas
água morna do bom gosto, do bom senso e das boas intenções
insípida, amorfa, inodora, incolor
água que o comerciante esperto coloca na garrafa para diluir o whisky
água onde não há seca
água onde não há sede

água em abundância
água em excesso
água em palavras.

Eu apresento a página branca.
A árvore sem sementes.
O vidro sem nada na frente.

Contra a água.

(Arnaldo Antunes)

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

AOS QUE SONHAM

Não se pode sonhar impunemente
Um grande sonho pelo mundo afora,
Porque o veneno humano não demora
Em corrompê-lo na íntima semente…

Olhando no alto a árvore excelente,
Que os frutos de ouro esplêndidos enflora,
O Sonhador não vê, e até ignora
A cilada rasteira da Serpente.

Queres sonhar? Defende-te em segredo,
E lembra, a cada instante e a cada dia,
O que sempre acontece e aconteceu:

Prometeu e o abutre no rochedo,
O calvário do filho de Maria
E a cicuta que Sócrates bebeu!

(Raul de Leoni)

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

TRÊS MÃES, TRÊS FILHOS

Três mulheres conversando ao lado de um poço. Um velho as escutava.


A primeira mulher dizia:
- Meu filho é muito forte, corre e pula.

A segunda dizia:
- O meu filho canta como os passarinhos.

A terceira mulher nada dizia, então o velho perguntou:
- Você não tem filhos?

Ela respondeu:
- Tenho, mas ele é um menino normal como todas as crianças.

As três mulheres pegaram seus potes cheios de água e foram caminhando. No meio do caminho, elas pararam para descansar e o velho homem sentou ao lado delas.

Logo elas viram seus filhos voltando para perto delas.

O primeiro vinha correndo e pulando, o segundo vinha cantando lindas canções.

O terceiro não vinha pulando nem cantando, ele correu em direção a sua mãe e pegou o pote cheio de água e levou para casa.

Então as três mulheres perguntaram para o velho homem:
- O que o senhor achou dos nossos filhos?

E o velho homem respondeu:
- Realmente, eu acabei de ver três meninos, mas vi apenas um filho.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

VOU-ME EMBORA PRA ARQUIBANCADA

Vou-me embora pra Arquibancada
Lá sou amigo do Rei
Lá tenho o futebol que eu quero
No estádio que escolherei
Vou-me embora pra Arquibancada

Vou-me embora pra Arquibancada
Aqui eu não sou feliz
Lá o drible é uma aventura
De tal modo inconseqüente

Que Garrincha algoz da Espanha
Senhor do tempo inclemente
Vem a ser contraparente
Do genro que nunca tive
E como farei mil gols
Leônidas e bicicleta
Zagueiros por meus escravos

Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na arquibancada
Mando chamar Mário Filho
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Nelson vinha me contar

Vou-me embora pra Arquibancada
Na Arquibancada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir segunda divisão

Tem gol de placa automático
Tem chopp gelado à vontade
Tem cheerleaders bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar

— Lá sou amigo do Rei —
Terei o troféu que eu quero
No estádio que escolherei
Vou-me embora pra Arquibancada.

* Homenagem a Manuel Bandeira que foi embora pra Pasárgada há 40 anos...
 
(Roberto Vieira)

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

AMAR É SER FELIZ

Quanto mais envelhecia, quanto mais insípidas me pareciam as pequenas satisfações que a vida me dava,

tanto mais claramente compreendia onde eu deveria procurar a fonte das alegrias da vida.

Aprendi que ser amado não é nada, enquanto amar é tudo.

O dinheiro não era nada, o poder não era nada.
Vi tanta gente que tinha dinheiro e poder, e mesmo assim era infeliz.

A beleza não era nada.
Vi homens e mulheres belos, infelizes, apesar de sua beleza.

Também a saúde não contava tanto assim. Cada um tem a saúde que sente.
Havia doentes cheios de vontade de viver e havia sadios que definhavam angustiados pelo medo de sofrer.

A felicidade é amor, só isto.
Feliz é quem sabe amar.

Feliz é quem pode amar muito.
Mas amar e desejar não é a mesma coisa.

O amor é o desejo que atingiu a sabedoria.
O amor não quer possuir.

O amor quer somente amar.

(Herman Hesse)

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

ORAÇÃO DO PROFESSOR


Mesmo que eu fale todas as línguas dos homens e dos anjos, se me faltar o amor, sou como um sino que tange.

Mesmo que eu deslumbre todos os alunos e lhes fale maravilhas sobre todos os temas,
se me faltar o amor para lhes chegar ao coração, com mensagem de verdade e vida,
sou como um disco a repetir palavras alheias, sem compromisso social.

Mesmo que eu consuma a saúde em anos de trabalhos no magistério, se não tiver amor, isto de nada me adianta, pois estou longe de meus alunos e lhes dou tudo que tenho,
exceto entregar-me a mim mesmo.

O amor é paciente e respeita o ritmo de crescimento de cada aluno.
O amor é serviçal e se entrega sem reservas.
O amor não é invejoso e reconhece, com alegria, todo o bom que existe no outro.

O amor não envaidece, porque dá com a simplicidade de irmão e com a simplicidade do povo.
O amor não busca os próprios interesses, pois quer o bem e o crescimento do outro,
a ponto de se esquecer de si mesmo.

O amor não se irrita, nem perde o controle e a paz diante dos defeitos do aluno;
corrige-o para seu bem e não para desafogar a própria impaciência.
O amor tudo desculpa, porque conhece e compreende o coração do homem.
O amor jamais cessará.

A docência é apenas uma tarefa no caminho.
Quando chegarmos à meta, não haverá sábios nem ignorantes, pois seremos todos irmãos.

E de tudo que houvermos semeado, só permanecerá o AMOR.

De: Eudália Moreira de Sampaio
Moraújo - CE

terça-feira, 12 de outubro de 2010

MANÉ FALA Ó


Uma das figuras mais interessantes e inesquecíveis da minha Campinas: Mané Fala Ó.

Ele vivia entre o Cambuí e o Taquaral, hoje Vila Tofanello. Andava de bonde e, toda moça que encontrava cumprimentava com um alegre  Ó. Moça feia virava moça bonita - Mané assim a transformava.

Percorria a cidade de bonde, de bicicleta e não havia que não o conhecesse. Até o Ó foi assimilado pela cidade... quem não é de lá estranha que ainda muitas moças, mulheres de cumprimento com um Ó em vez de Oi.

Mané era moço de bons costumes: era educado, não fumava e não bebia. Geralmente usava uma camiseta branca e sobre ela camisa xadrez. Nos pés: alpargatas.

Me lembro muito bem dele. Quando saía do Colégio Ateneu Paulista e ia até o centro pegar o bonde para casa, lá estava Mané esperando as moças com seu Ó e, quando ele não nos via quem o cumprimentava éramos nós: Ó Mané!!!

Hoje Mané não está mais por lá... foi falar Ó pra papai do céu... e Campinas ficou mais triste sem ele.